Não abstraia.
Todos os dias ele pegava o mesmo ônibus as 8h da manhã e procurava por ela, a garota que sentava sempre no mesmo banco com seus fones de ouvido e o rosto "enterrado" num livro.
Ela não era a mais bela da cidade, talvez não fosse considerada nem a mais bela daquele ônibus, mas ela era bela ao seu modo. Ele não sabia ao certo o que ela tinha que o atraia tanto, não sabia se eram os seus grandes olhos pretos que mais pareciam duas jabuticabas e carregavam um brilho jamais visto em nenhum par de olhos antes, ou se eram as sardas espalhadas aleatoriamente em seu rosto formando uma constelação que ele gostaria de poder "estudá-las" de perto, ou o fato de ela estar sempre tão focada em sua leitura e em seus intervalos o modo como ela parecia se perder em seus pensamentos olhando em um ponto fixo através da janela do ônibus, ou talvez o que o atraia não eram essas características de forma individual, mas o conjunto delas.
Durante todo percurso ele tentava encontrar alguma forma de chamar a atenção daquela garota que parecia nem saber da sua existência, e mais um dia ele descia em seu ponto com a "chama" da esperança apagada. E depois de um mês nesse mesmo ciclo ele desistiu de tentar ser visto por ela, e chegou a conclusão de que ela já tinha notado a sua presença, mas não o considerava bom o suficiente para uma garota tão linda e aparentemente tão culta. Porém o que ele não sabia é que na verdade ela estava tão perdida em seus livros e pensamentos que nunca o notou, nunca percebeu que ele a admirava todos os dias, nem percebeu o olhar que ele a deu no dia em que o seu livro caiu e ele fez questão de pegar só para ter a chance de olhá-la bem no fundo dos seus olhos. Ela não percebeu nenhuma das suas tentativas, foram todas em vão.
E sempre que a garota se perdia em seus pensamentos depois de ler mais um capítulo do seu livro preferido ela se perguntava: "Por que eu não encontro ninguém como o Sr. Darcy, que fez tudo para ver a Elizabeth feliz?", e por estar tão abstraída com a história envolvente do livro Orgulho e Preconceito ela nunca percebeu que na realidade jamais encontraria a personificação do Darcy e nem percebeu que havia um cara que não era nenhum personagem perfeito criado por autores, mas que estava disposto a fazer tudo que estivesse ao seu alcance para torná-la tão feliz quanto - ou até mais - que qualquer personagem de todos os contos já lidos por ela.
E nenhum dos dois sabiam do desejo que ambos tinham em escrever a sua própria história de romance, e nunca souberam.
Ao escrever essa fábula pergunto-me quantas histórias de amor não foram escritas e vividas porque um dos "protagonistas" da história estavam envolvidos e distraídos demais com outras coisas que não notou o momento em que deixou escapar a oportunidade de protagonizar uma bela história de amor ou amizade.


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